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O reverso e o retorno

Dedico este artigo a uma pedagoga em especial...Profa. Lourdinha.

Em seu trabalho em sala de aula, amor e educação eram sinônimos intrínsecos...Mais do que levar o conhecimento, distribuiu sementes de amor e respeito pela vida a todos os alunos que tiveram o privilégio desta convivência. Se hoje faço este trabalho junto à vocês, leitores, acreditem, é resultante da Graça Divina de tê-la como Mãe.

Lembro-me de que certa vez chegou a levar nosso gatinho siamês,em classe, para demonstrar o quanto os animais são afetuosos e merecem todo nosso respeito...Para ela, arrancar a folha de uma planta causava-lhe dor. Em suas palavras: "elas sentem como se lhes arrancasse uma mãozinha, um bracinho..."

Existem mais Lourdinhas espalhadas pelo mundo afora, com certeza...mas creio que ainda são poucas.

E estes e tantos outros raros ensinamentos nos dias de hoje, são modelos que um dia ainda assim acredito serem passíveis de um resgate em aula, transformando muito mais crianças em verdadeiros adultos.

 

Somos seres únicos.
Cada um com seu DNA, sua constituição física, sua atividade mental, com sua estrutura familiar, com sua vivência pessoal no decorrer da trajetória da vida.

Embora sob as mesmas necessidades de sobrevivência, que muitas vezes em grande parte do universo deixa a desejar e de satisfazer, cada um de nós passa por sua vivência familiar única, nem mais nem menos valiosa do que a do outro,sendo todas elas importantes pra si, para sua formação como indivíduos.

É dentro desta formação familiar, que cada ser vai constituindo sua base de personalidade, vivendo suas experiências conforme o estado, a cultura, os valores, os hábitos, a moral, os princípios, o direcionamento dos interesses, aprendendo pelo exemplo que vêem em casa e no âmbito em que estão inseridos. 

Seja pelos pais, familiares ou cuidadores, estes valores e conceitos de educação sempre visam o intuito de proporcionar o bem, independente dos objetivos serem amplamente alcançados ou às vezes mal interpretados pelos filhos posteriormente.

Uma mãe, um pai, um responsável pela criança, incondicionalmente prestará toda a assistência que aprendeu como sendo a melhor à seu filho, e assim sucessivamente vão acontecendo os up-grades da vida. Toda lição, aprendizado, vai se aprimorando, se tornando um modelo e assim sendo transmitido de geração em geração, conforme nosso universo se atualiza.

É na fase anterior à escola que estes valores se enraízam no indivíduo. 

Quanto mais a criança tem a oportunidade de conviver em um ambiente familiar saudável, equilibrado afetivamente, harmônico, leia-se aqui mais compartilhamento dos integrantes da casa do que individualismo, com uma diversidade de demonstrações e escolhas, maior o elo que terá com os seus, maior será o valor que dará às emoções, ao afeto, à união, ao respeito, à família, maior será o valor que dará pela Vida. Neste ponto, todos os valores morais apreendidos se tornam menos corruptíveis e mais enraizados quando é chegada a fase escolar.

A família, é sem dúvida, uma comunidade de vida, de amor, de acolhimento e os valores adquiridos em casa terão reflexos em todas as instâncias da sociedade e em particular na escola. Ela reproduzir nos seus descendentes os seus hábitos, costumes e valores através de gerações. ¹

LINDA DAVIDOFF descreve como se dá o desenvolvimento do ser humano desde a concepção e a importância dos relacionamentos dos primeiros meses de vida e da primeira infância na formação da personalidade e da socialização futura do indivíduo. 
Para ela a base de um relacionamento sadio entre mãe e filho está na intensidade de afeto que a mãe dispensa à criança na amamentação e nos cuidados na satisfação de suas necessidades fisiológicas. 
A qualidade das interações sociais da criança estrutura a personalidade do indivíduo de algumas formas importantes. 

A família é um contexto importante em que as crianças aprendem sobre emoções. A expressividade e a disponibilidade emocional das figuras de apego podem ter implicações importantes para o desenvolvimento. Crescer numa família expressiva pode promover compreensão emocional e social, o que, por sua vez, pode se refletir em maior competência no relacionamento posterior com companheiros. ¹

O sorriso é parte das interações lúdicas que se estabelecem entre a mãe e o bebê. 
Os dois se comunicam através do olhar, do sorriso e da voz e do alinhamento do rosto e o bebê espelha o comportamento da mãe. Cada dupla desenvolve um tipo peculiar de código. As compreensões compartilhadas que se constroem entre o bebê e as suas figuras de apego, são a base para todas as interações posteriores. ¹ 

A repressão das emoções configura-se altamente maléfica para a saúde do organismo. A maneira como os pais tratam os filhos tem conseqüências profundas e duradouras.¹

Os pais emocionalmente aptos, ensinam a empatia, geram confiança à medida em que mostram autodomínio e controle emocional. Pais com alta inteligência emocional são mais eficientes na ajuda aos filhos, comportando-se de forma menos tensa, sendo sociáveis e simpáticos. Os filhos mostram confiança, curiosidade, prazer em aprender. Compreendem limites, são cooperativos e têm maior capacidade de comunicar-se. ¹

Citando Melanie Klein em seu livro “Amor, ódio e reparação”, pode-se concluir que:
(...) um bom relacionamento para com nós mesmos é condição para demonstrar amor, tolerância e bom senso para com os outros. Se, no mais profundo de nossos inconscientes, nos houvermos tornado capazes de remover até certo ponto os ressentimentos presentes em nossos sentimentos para com nossos pais, e os tivermos perdoado pelas frustrações que nos vimos obrigados a suportar, então haveremos de nos sentir em paz com nós mesmos e estaremos em condições de amar outras pessoas, no verdadeiro sentido da palavra. (KLEIN, 1975, p. 162)¹ 

A agressividade inata tende a ser ativada pelas circunstâncias externas desfavoráveis e, inversamente, é mitigada pelo amor e compreensão que a criança recebe. 
O seu desenvolvimento e suas reações com o adulto devem ser considerados como resultantes da interação e influências externas e internas.¹

A influência do ambiente familiar é decisiva para o ajustamento emocional e, muitas vezes, o grupo familiar não oferece condições de estabilidade e de segurança emocional para o desenvolvimento normal de seus filhos.¹

Grande incidência de conflitos emocionais que se exteriorizavam por ansiedade, sentimentos de inferioridade, de insegurança, depressão, medo, negativismo e incapacidade de estabelecer relações afetivas, coincide com o grande número de famílias desintegradas, desunidas, de pais ausentes, incompreensivos, imaturos, neuróticos, dominadores, desajustados, que não podiam dar compreensão, amor e apoio aos filhos.¹

A problemática emocional, ligada a situação conflitiva, absorve a disponibilidade perceptiva e reacional do indivíduo à estimulação externa, dificultando a sua integração ao ambiente e perturbação não só a sua capacidade de atenção, de concentração, de raciocínio, mas sobretudo, a de relacionamento.¹

Geralmente crianças com problemas emocionais adotam atitudes agressivas, de inibição, de constrição, de regressão, de isolamento, de hostilidade, de oposição, de indiferença, de indisciplina, de exibicionismo, de dissimulação, de sensibilidade e emotividade excessivas, sendo freqüentes os problemas de mentira, de furto e de natureza sexual.¹

No mundo capitalista e individualista em que vivemos, onde pais precisam se dedicar intensamente ao trabalho, a instituição familiar virou algo sem importância. ²

A preocupação maior está focada nas grandes guerras, nas violências urbanas, na realidade econômica; o interesse maior está no avanço da tecnologia, no acúmulo de riquezas ou, então, na sobrevivência. ²

Esta é a realidade do mundo que está sufocando pais, levando-os, em sua maioria, à ausência familiar. ²
Para essa instituição, não se encontra mais tempo e paciência para o amor e afeto. O erro de muitos pais é pensar que boa escola, boa moradia, conforto e dinheiro sejam tudo para garantir ao filho a chave das soluções para seus problemas. 
Os pais, além de se preocuparem com o progresso físico e intelectual dos filhos, devem dar a mesma atenção à saúde emocional. A educação das emoções não é menos importante do que a do corpo e mente, sendo, porém, muito mais complexa. ²

Um alto percentual do padrão emocional do ser humano é formado nos primeiros anos de vida. 
Se os pais fornecerem um modelo deformado durante a infância, será difícil, se não impossível, modificá-lo mais tarde. Muitos desconhecem as conseqüências deixadas em uma criança quando para a emoção não é atribuído um valor significativo. ²

Os alfabetizadores encontram, com freqüência, muitos problemas de aprendizagem causados por fatores emocionais. A criança é aquilo que seus pais são, é o resultado do ambiente, das influências que a rodeia e dos exemplos que seus pais dão. Por isso, podemos afirmar que educar filhos não é brincadeira. ²

Dobson (1984) relata um estudo realizado pela Universidade de Harvard. O estudo foi orientado pelo Dr. Burton L. White e uma equipe de quinze pesquisadores que, em um período de dez anos, estudaram intensamente crianças pequenas com o objetivo de descobrir quais as experiências nos primeiros anos de vida que concorrem para o desenvolvimento de um ser humano sadio e inteligente. Esses pesquisadores concluíram que os pais podem aumentar a capacidade intelectual de seus filhos e resumiram suas conclusões em seis tópicos:²

• Fica cada vez mais claro que as origens da capacidade humana encontram-se num período crítico de desenvolvimento entre oito e dezoito meses de idade. As experiências da criança durante esses breves meses fazem mais para influenciar a sua futura competência intelectual do que qualquer outro período antes ou depois deles. Isso não significa que antes do oitavo mês, ou que a partir de um ano e meio de idade, a criança não necessite das influências positivas de seus pais; pelo contrário, carinho e atenção se fazem necessários em toda faixa etária.

• O fator ambiental mais importante na vida da criança é sua mãe. Ela é o foco principal e tem mais influência sobre as experiências da criança do que qualquer outra pessoa ou circunstância. A figura materna pode até ser a mais importante, porém não é a única. A presença do pai deve ser muito valorizada, desde que o mesmo não seja visto pela criança somente como figura autoritária que serve para impor regras e dar castigos quando as mesmas não são respeitadas.

• A quantidade de linguagem viva dirigida a uma criança (não confundir com televisão, rádio ou conversas ouvidas) é vital para o desenvolvimento de suas capacidades lingüísticas, intelectuais e sociais básicas. Os pesquisadores concluíram que oferecer uma vida social rica a uma criança de doze a quinze meses é a melhor coisa que se pode fazer para garantir-lhe uma boa mente. Essa vida social rica a que os pesquisadores se referem deve ter início já no ventre materno, sem economizar linguagem afetiva para com o bebê que está a caminho.

• As crianças que tiveram livre acesso às áreas de interação da família progridem muito mais depressa do que aquelas cujos movimentos são restringidos. Quanto mais estímulos a criança receber, melhor ela se desenvolverá. Por isso, é necessário que a família propicie à criança ambientes e situações que favoreçam seu desenvolvimento intelectual e físico.

• O núcleo familiar é o sistema educacional mais importante. Se quisermos produzir crianças mais capazes e sadias, é preciso fortalecer as unidades familiares e melhorar as interações que ocorrem dentro delas. Muitos pais não têm consciência do quanto são responsáveis pela inteligência emocional de seus filhos, o que mostra que, nesses casos, para a instituição familiar não é destinada a devida importância.²

• Os melhores pais foram os que se sobressaíram em três funções-chave:

(1) Foram soberbos no planejamento e organização dos ambientes para os filhos. É fundamental que pais se preocupem tanto com a saúde física e intelectual quanto com a saúde emocional da criança.
(2) Permitiram que os filhos os interrompessem em períodos breves de 30 segundos, durante os quais houve troca de consultas pessoais, consolo, informação, entusiasmo. A criança que tem liberdade para dialogar com seus pais torna-se mais segura e autoconfiante.
(3) Eram disciplinadores, firmes, embora mostrassem simultaneamente grande afeição pelos filhos.²

DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL DA CRIANÇA

O padrão emocional do ser humano é formado nos primeiros anos de vida. 

Como vimos acima, se os pais fornecerem um modelo deformado durante a infância, será difícil, se não impossível, modificá-lo mais tarde.³

A inteligência emocional da criança é determinada até certo ponto pelo temperamento, isto é, pelos traços de personalidade com os quais nasce; mas ela também é moldada pelas interações com os pais. Essa influência começa nos primeiros dias de vida, quando o sistema nervoso imaturo da criança está se formando.³

Alguns especialistas argumentam que o estado emocional da mãe gestante, variando de relaxado e feliz para tenso e infeliz, pode ter efeito importante sobre o feto. 

Afirma que alguns estudos têm sugerido que experiências estressantes da mãe gestante podem alterar os movimentos do feto de normal para hiperativo: “a mãe deveria saber que criança fisicamente saudável tem maior probabilidade para um desenvolvimento psicológico adequado, visto que o conceito do eu físico da criança desempenha parte importante na totalidade do autoconceito”. (Denise Berenice Behenck - Ernani J. Schneider -³)

Os adultos não devem interpretar as emoções das crianças baseados em si mesmos, em suas emoções. A mesma emoção de uma criança em um adulto pode indicar um sentimento completamente diverso. Na primeira infância, as reações são mais complexas. Os estados emocionais mudam e se transformam rapidamente. Em questão de minutos, a criança pode mudar da ira para o prazer. Isso não quer dizer que suas emoções sejam irreais ou sem importância. Sua importância é provada pelo fato de que as primeiras impressões da infância podem durar a vida inteira.³

Muitos pais fazem pouco caso das emoções de seus filhos, alegam que são apenas crianças, mostrando-se indiferentes: afinal, um carrinho com a roda quebrada não tem importância alguma perto dos problemas da empresa ou, então, até acham graça, rindo da criança irritada. ³

Atitudes como essas, invalidando sentimentos demonstrados pela criança, fazem-na perder a confiança em si mesma. ³

É de grande importância que ela se sinta respeitada e valorizada pela família para ter melhor rendimento na escola, mais amigos e uma vida mais saudável e bem- sucedida.³

A criança é bem espontânea, não faz esforço para reprimir sua expressão emocional, e o papel do adulto é incentivá-la a exprimir todas as tendências emocionais que contribuam para o desenvolvimento do bom caráter. Deve também ensiná-la a controlar todas as suas inclinações erradas, ou seja, promover e desenvolver as emoções desejáveis e controlar as indesejáveis.³

É comum os pais serem bastante amorosos e atenciosos com seus filhos e, no entanto, não conseguirem lidar de forma eficiente com as emoções negativas dos mesmos. Entre esses pais incapazes de ensinar inteligência emocional aos filhos, Goleman (1997, p.22) identifica três tipos:

1 pais simplistas, que não dão importância, ignoram ou banalizam as emoções negativas da criança;

2 pais desaprovadores, que são críticos das demonstrações de sentimentos negativos dos filhos e podem castigá-los por exprimirem as emoções;

3 pais laissez-faire (“deixam fazer”), que aceitam as emoções dos filhos e demonstram empatia por eles, mas não os orientam nem lhes impõem limites.

Goleman (1997) descreve algumas das principais atitudes de pais preparadores emocionais:

• vêem nas emoções negativas uma oportunidade de intimidade e um momento importante para agirem como educadores;

• percebem e valorizam as próprias emoções;

• são sensíveis aos estados emocionais das crianças, mesmo os sutis;

• não ficam confusos nem ansiosos com a expressão de emoção da criança; sabem o que precisa ser feito;

• respeitam as emoções da criança;

• não dizem como a criança “deve” se sentir;

• não sentem que precisam resolver todos os problemas para a criança;

• usam os momentos de emoção para: - escutar a criança; - demonstrar empatia com palavras tranqüilizadoras e afeição; - ajudar a criança a nomear a emoção que ela está sentindo; - orientar na regulamentação das emoções;- impor limites e ensinar manifestações aceitáveis da emoção;- ensinar técnicas de solução de problemas.³

De acordo com Chalita (2001), a habilidade emocional é o grande pilar da educação, sendo que não é possível desenvolver as habilidades cognitiva e social sem trabalhar a emoção. Ainda para o autor, trabalhar a emoção exige paciência, pois se trata de um processo continuado cujas mudanças não ocorrem de uma hora para outra.³

O ENSINO NA ESCOLA E O DESENVOLVIMENTO AFETIVO


Infelizmente, nossa realidade sócio-econômica é um dos fatores que proporciona o “desmame” destas crianças logo cedo. Pais precisam trabalhar para proporcionar o sustento do lar e em virtude disto, as crianças vão cedo para a escola, ou ficam a maior parte do tempo com babás do que com sua família, perdendo participações valiosas e enriquecedoras com os seus.

Existe ainda dentro desta questão, o fator de que, nos dias de hoje, as famílias são cada vez menores, o que dificulta as relações das crianças com outras da mesma idade, justificando muitas delas ingressarem na escola nos primeiros anos de vida, podendo aparentemente representar um ganho, favorecendo o desenvolvimento infantil, como também a busca por outros substitutos da atenção familiar na tentativa de suprir esta ausência.. 

Porém, sendo o ingresso à escola o primeiro passo rumo à independência da criança em relação aos pais, temos que contar que vários sentimentos se entrelaçam em função desta “separação” que acontece com a ida da criança para a instituição de educação infantil. E é aí que começa a grande questão.

Se por um lado a criança vai se socializando mais cedo, dependendo da escola, de seus princípios, da qualidade e formação de seus professores, da estrutura e das atividades, ela pode, desde muito pequena, ir formando sua personalidade voltada à uma independência, a um individualismo, a uma visão de universo competitivo (como vimos no vídeo de Robert Happe), já que a luta e imposição de seus direitos frente aos seus colegas de classe será uma de suas maneiras de sobrevivência e enquadramento neste contexto, atrofiando sua capacidade emocional ao invés de enriquecê-la e com isso também sua auto-estima.

Lá, na escola, não tem pai, nem mãe, nem responsável que a afague quando cair, que a abrace, que demonstre o profundo carinho e respeito, que a considere profundamente e individualmente (já que cada um tem seu histórico)...Sim, o carinho, a atenção, os cuidados existem, mas são diferentes dos vindos de seu elo familiar, e esta vivência marcante e enriquecedora se perde...

Todo aprendizado que ela vivenciará, estará mais voltado à sua percepção solitária, embora inserida dentro do contexto da socialização.

Educar crianças na época pré-escolar é uma tarefa muito complexa.

Infelizmente a maioria dos professores, salvo os que cursam especialização ou se dedicam a estudos complementares, não estão totalmente preparados para esta tarefa. Dentro da formação pedagógica por exemplo, apenas um semestre é dedicado à alfabetização(na maioria das escolas), enquanto que a maioria do curso é voltada para a profissão genérica, ou seja, os profissionais quando formados compreendem muito pouco sobre a vivência e das necessidades e importância do que caracteriza-se necessário dentro desta dinâmica de ensino.

Com isso, esta passagem da visão concreta da criança para a simbólica, onde irá compreender a simbolização do universo através da linguagem, nem sempre é feita de uma forma qualitativa, observando todos os aspectos, inclusive os emocionais que envolvem esta progressão de raciocínio.

Nas primeiras séries do ensino fundamental, a relação entre professor e aluno, carece de um clima de maior afetividade, visto que, nessa fase de escolaridade, o aluno faz do ambiente escolar uma extensão do lar, em busca de segurança e afeto - Márcio Ferrari (2004: 36). “não dá para ensinar pensando apenas na cabeça do aluno,pois o coração também é importante” (MELLO, 2004: 18), no contexto atual, é necessário que a escola procure comprometer-se não apenas com o desenvolvimento cognitivo do educando, mas principalmente com seu desenvolvimento sócio-emocional.²

Para WINNICOTT (1971, p. 211) a saúde do país depende de unidades familiares sadias, com pais que sejam indivíduos emocionalmente maduros. ¹

ANNA FREUD (1971, p.162), considerava que as normas escolares prestam pouca ou nenhuma atenção às diferenças individuais.¹

Segundo pesquisa de Adriana Bragagnolo, em “A experiência de uma professora – pesquisadora no universo da educação infantil", o professor neste início de vida escolar têm um papel fundamental e serve como referencial. É importante demonstrar para a criança que quem lhe acompanha é um ser semelhante à ela, com sabedoria e limitações. É importante que a criança sinta que pode pensar expressar seu pensamento com liberdade, encarando e aceitando seus erros como algo normal em seu crescimento, pois é a partir deles que ocorrerá a aprendizagem.4

O tipo de formação do professor de Educação Infantil, influencia diretamente na metodologia utilizada para trabalhar com as crianças.4 Dependendo de sua visão de homem e de mundo, de sua postura frente a educação, será sua prática.4

Na Educação Infantil existe um cruzamento de numerosas relações: os pais - mais ou menos experientes, mas com a mesma preocupação de sempre, muitas vezes com dificuldades de separação no início do ano, dependendo do contexto, participando ativamente, enfim, cada um com suas características específicas; nas realidades mais privilegiadas aparecem as babás - com uma relação especial com as crianças; os irmãos - maiores ou menores... e no meio de tudo isso: o professor - mais ou menos afetivo, mais ou menos extrovertido, preparado, seguro ou inseguro. O mesmo, tem que estar preparado para trabalhar com esta trama de relacionamentos e demonstrar seu tipo de postura. É indispensável que exista diálogo, acolhimento, respeito e negociação. O professor é o mediador responsável para que esta relação aconteça.4

Ainda encontram-se instituições onde determinam que o novo professor da escola, com menos tempo de experiência, ou seja, o menos preparado, seja o responsável pelas crianças dessa fase, sendo que seria fundamental acontecer ao contrário: quanto menos idade tiver o ser humano, melhor deve ser a formação do profissional. Em conseqüência disso, algumas vezes nos deparamos com situações preocupantes, como por exemplo, trabalhos e avaliações inadequadas para determinada fase da criança, uma metodologia que não oportuniza a construção ou mais preocupação com os aspectos físicos do que com os pedagógicos.4

Alícia Fernández fundamenta que a "formação do professor deve ser pensada levando- se em consideração a importância que esta atividade tem do ponto de vista da formação dos seres humanos. As crianças estão construindo sua identidade e a tarefa do educador reveste-se de uma importância enorme em nível da subjetividade".4

Sendo assim, ainda está por desenvolver-se a nova escola, desenhada para a mente e o coração, que ensina autocontrole; empatia; a arte de ouvir, de resolver conflitos, de cooperar.

Agora vamos prosseguir esta questão e relacionar ao objetivo deste livro.

Imaginem uma criança que cedo ingressou na escola, conheceu os aspectos de individualidade prematuramente, e nada ou quase nada teve de entrosamento familiar e desenvolvimento profundo no aspecto emocional. 

Como será a relação desta com o universo? 

Como será a visão que terá do universo?

Esta criança, o futuro adolescente, o “pré-adulto”, verá a sociedade como um concorrente, no qual dividir não é sinônimo de ganho, somar significa perder o controle, prevalecendo assim o destaque e a luta para obter seu espaço ao sol, sendo direcionados para egoísmo, se tornando mais individualistas e menos compassivos e caridosos, já que o que é a emoção, o como foram apresentadas as emoções e o lidar com elas, a importância das demonstrações de afeto para nossa energia vital, a valorização da vida, o se colocar no lugar do outro, foram substituídos por conteúdo intelectual (objetivo cognitivo de ensino) logo cedo. E neste sentido, a parte mais importante é que estes indivíduos pouco saberão lidar com suas emoções e principalmente entender e atuar em todos os aspectos que a envolvem.

Princípios como compaixão, solidariedade, valorização, moral, passam a ter menor importância frente às provas e imposições do aprendizado e destaque intelectual... 
Sem contar que a parte religiosa ainda é controversa no ensino. A maioria das crianças recebe toda a explicação de universo voltada à visão dogmática e controladora, pouco didática.

Continuando e imaginando este projeto de criança a adulto dentro de todas as universidades que envolvem a experimentação animal, e imaginando o modelo cartesiano que a maioria delas oferece e possui como forma de personalidade, já que foram ensinados assim e a ausência de aspectos empíricos na educação, como vimos anteriormente diminui o caráter crítico e pesquisador, filosófico do ser, e ainda assim lembrando da falta de desenvoltura no âmbito emocional, como você imagina que se tornam estes estudantes, que além da carência afetiva e imaturidade emocional desde lá de trás, ainda tem, sozinhos, que assimilar o decreto de morte que eles mesmos devem fazer, pelas suas próprias mãos aos animaizinhos sadios e indefesos que sem opção são dispostos ao aprendizado experimental, animais estes que, como no livro “O Pequeno príncipe” os tinha como amigos na infância?

Influenciada pelo pensamento cartesiano, a escola/universidade não considera a dimensão afetiva como objeto de ensino e de aprendizagem. Com efeito, privilegia o conhecimento científico lógico-dedutivo comparável, racional e objetivo em detrimento do conhecimento relativo ao corpo, às artes, aos sentimentos e às relações na sala de aula.5  

Os professores constroem suas representações e, em função delas, realizam suas práticas e as impõem aos alunos. Assim, por meio do discurso, identificamos as concepções e as ações dos professores que interferem, positiva ou negativamente, nos resultados escolares dos alunos.5

As representações constituem formas de conhecimento do senso comum, as quais traduzem a posição e a escala de valores de um indivíduo ou de uma coletividade. Formas organizadas e partilhadas socialmente, elas servem para tornar a realidade compreensível e comum.5

E neste contexto, há uma luta interna muito grande por parte dos estudantes, entre estes dois lados da moeda, e neste caso, para o aspecto humano da questão, o fator intelecto > emoção colabora involutivamente no aspecto da capacitação e confiança do profissional, já que percebemos o quanto estes aspectos são importantes.  Ou seja, estimula-se em sala de aula a adoção da conduta fria em “prol da ciência”, causando a dessensibilização do ser, mas por outro lado, equivocadamente acredita-se que reprimindo o aspecto emocional estaria-se estimulando o intelecto, contribuindo para a melhor assimilação da questão. 

Glossário: Dessensibilização - processo no qual um estímulo vai aos poucos perdendo seu efeito desagradável sobre nós, causando indiferença diante de problemas sérios e da realidade do dia-a-dia.

Sendo assim, quanto maior for a quantidade do aprendizado, independente da dor infligida a outrem (já que ele mesmo não tem o amadurecimento para lidar com a dor no aspecto demonstrativo) quanto maior lhes for apresentado este valor numa justificativa intelectual da coisa, mais fácil a aceitação da experimentação animal, pois este modelo de frieza foi lhes ensinado como o certo e assim compreendem conseguir o destaque, o mérito, o reconhecimento profissional, a capacitação por intermédio desta conduta como única alternativa, baseado na falsa visão de que o conhecimento cientifico advém da maior quantidade desta prática e que em outras palavras esta prática é inteligente.

Na mentalidade deles, eles não estão errados. Foram ensinados a pensar assim desde o primeiro ingresso à escola.

Deste modo defendem a vivissecção, a experimentação animal, e mesmo fazendo cursos que envolvam o holismo, como a medicina tradicional chinesa ou florais, por exemplo, se continuarem com esta visão somente intelecta da coisa, ou seja, de um lado só da moeda, não poderão conseguir abordar eficazmente tudo o que envolva emoção. E já vimos que a emoção possui um aspecto grandiosamente influente em todo ser vivo.


“Uma ciência empírica privada de reflexão bem como uma filosofia puramente especulativa são insuficientes; consciência sem ciência e ciência sem consciência são radicalmente mutilados e mutilantes...”.Edgar Morin ( 1994: 10)


O que quero dizer é que pra estes indivíduos, justificar que o que fazem é pro bem da ciência e profissão, qualificar estas atitudes como científicas ( linguagem de intelecto = mesma linguagem apreendida para compreensão), é uma maneira fácil de convencê-los de que este método é o certo.

Somando-se a isso, e considerando o que falei sobre a formação competitiva e individualizada do ensino em geral, através dos tempos, temos a medicina e a medicina veterinária como profissões de status (status = racional = intelecto). 
Cursar medicina veterinária, destacar-se intelectualmente, deter o poder da vida e da morte nas mãos (soma-se aqui todas as vivências e práticas experimentais) é símbolo de status, de poder, lhes confere a falsa sensação de onipotência.

E no que se transformaria a onipotência para pessoas despreparadas emocionalmente?

Arrogância, inflexibilidade, cartesianismo,falta de auto-estima e com isto submissão aos dogmas, falta de vontade investigativa,  investigações clínicas superficiais, diagnósticos insuficientes, danos e erros no atendimento, levando ou não ao óbito do animal.

Uma pessoa que aprende a negar o aspecto emocional do que envolve vida tem que canalizar esta parte para outro lado. Então ela tenta supostamente suprir toda a inconsciente e mal elaborada culpa de suas atitudes buscando incansavelmente superar esta dificuldade na ciência e mais ciência...Mas como vimos a ciência envolve energia, que envolve princípios vitais, que envolve ética, que envolve respeito pela vida. Então em outras palavras, não se precisa dizer muito que esta visão de ciência a qual lhes é transmitida está incompleta e não é 100% eficaz.

Se sua profissão norteia o bem estar em prol da vida, não se deveria valorizar a vida em todas as experiências e conceitos em aula?

Agora vamos considerar um novo indivíduo como este, mas advindo de um ambiente acolhedor e carinhoso, cheio de afeto, princípios morais, solidários...Mesmo que ele tenha que passar por esta fase aniquiladora de sentimentos, este treinamento para a frieza, o subjulgar das emoções, ao final do curso, este sim, resgatará o que ficou enraizado na infância e agora como profissional, buscará formas de reverter esta vivência imposta, aceitando, buscando outros meios para esclarecimento de que os objetivos justificados em aula, são passíveis de transformações, de mudança de ótica.

Estes indivíduos são os poucos veterinários do bem, que possuem o feeling profissional no tratar do animal, que não colocam um anteparo entre eles e seus pseudo-pacientes, que consideram muito mais do que os sintomas do animal e sim, se interessam por tudo que possa dizer de seu histórico e ambiente para enriquecer o diagnóstico.

Conclui-se então até aqui, que existe uma necessidade social para um resgate, uma maior conscientização do afeto dentro do lar e das famílias, seguidos de uma reforma no ensino, desde o fundamental até o universitário, preparando as novas crianças que representarão nosso futuro, nossos profissionais, nossos políticos, nossa sociedade, sob uma equilibrada e saudável propiciando valores, consciência e respeito sobre o universo o que nele habita.

Permeada a esta situação, a didática relativa ao ensino, principalmente experimental, necessita não só de atualizar-se, buscando formas alternativas e eficientes, como vemos existir nos países mais evoluídos(mas que envolve investimento financeiro nem sempre interessante), como também se faz necessário aos professores compreender que tais disciplinas amplamente praticadas são passíveis de desenvolver nos estudantes novas patologias, fobias e stresses, prejudicando a eficácia da atuação profissional e a relação deste com a sociedade em todo contexto que abrange, já que como vimos o preparo emocional nem sempre é desenvolvido de forma correta na trajetória familiar e posteriormente de ensino para a todas as crianças. " 

É mediante o estabelecimento de vínculos afetivos que ocorre o processo ensino-aprendizagem”(CODO e GAZZOTTI, 2002)2

Talvez, dentro do exame de certificação junto aos conselhos, os aspectos psicológicos do profissional pudessem ser avaliados para assim conceder o registro de uma forma mais coerente para o bem estar do profissional diante das adversidades que encontra e lida pelo caminho.

Se ele não se envolve, se dessensibiliza, perdendo assim a dados importantes para a riqueza investigativa, e se ele se envolve emocionalmente, se torna passível de esmorecer...

Outro ponto importante, além da inserção dentro do ensino de cadeiras como filosofia, sociologia e psicologia, seria fazer uma aliança interdisciplinar: estudantes das áreas da saúde que envolve este tipo de aula experimental, já que não são somente os da área veterinária, tendo a opção de freqüentar uma terapia de apoio/suporte gratuita, através dos estagiários em psicologia, proporcionando aos estagiários de psicologia um enriquecimento de sua experiência clínica como futuros profissionais, e aos estudantes necessitados, uma melhor condição para absorver todo conteúdo formativo com mais equilíbrio, já que consideramos que na maioria das universidades correlatas também encontra-se a formação em psicologia.

Ainda em relação à vivência experimental, um estágio em abrigos de animais, dirigidos por protetores que os resgatam das ruas deveria ser mais estimulado e seria muito mais qualitativo, pois abarca inúmeras e escabrosas situações  da grande realidade, do que um estágio em clinica, onde estes casos, "corriqueiros" da vida real, se tornam raros num cotidiano de pet-shop.

Em breve serão colocados algumas indicações de abrigos onde profissionais prestam atendimento, para exemplificar esta parceria altamente benéfica para ambas as partes.

Seguem alguns vídeos que ilustram todo este conteúdo e outros artigos referentes ao módulo 2 deste e-book.

Referências artigos & livros:
para download dos livros/ artigos, clique com o lado direito do mouse 
e escolha salvar como"

1 - FAMÍLIA http://www.facilitaja.com.br

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2 - A INFLUÊNCIA DA AFETIVIDADE NO AMBIENTE PEDAGÓGICO - Maria de Lourdes Sobral

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3 -EDUCAÇÃO E AFETO - Uma ligação necessária
Denise Berenice Behenck - Ernani J. Schneider
Curso de Especialização em Psicopedagogia

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4 -A EXPERIÊNCIA DE UMA PROFESSORA-PESQUISADORA NO UNIVERSO DA EDUCAÇÃO INFANTIL. Adriana Bragagnolo

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5-ANÁLISE DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE AFETIVIDADE NA RELAÇÃO EDUCATIVA - Marinalva Lopes Ribeiro - France Jutras - Roland Louis

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KLEIN, Melanie. 
AMOR, ÓDIO E REPARAÇÃO: as emoções básicas do homem, do ponto de vista psicanalítico. 
2ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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TANIA ZAGURY - LIMITES SEM TRAUMAS

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 INTELIGÊNCIA EMOCIONAL - DANIEL GOLEMAN - Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda, 1995.

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CHALITA, Gabriel. Educação: A solução está no afeto. 6. ed. São Paulo: Gente, 2001.

CODO, Wanderley (Coordenador) GAZZOTTI, Andréa Alessandra. Educação:carinho e trabalho. Petrópolis, RJ: 3ª Edição. Ed. Vozes. Brasília: Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação: Universidade de Brasília.Laboratório de Psicologia do Trabalho, 2002.

DOBSON, James. Respostas às suas perguntas. São Paulo: Mundo
Cristão, 1984.

DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia. 1ª ed. Rio de Janeiro: McGrowhill, 1983.

FERRARI, Márcio. O teórico que incorporou o afeto à pedagogia.
In: Revista-Nova Escola, Abril/2004.

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