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 Similia Similibus Curentur: 

Notação histórica da Medicina Homeopática

Dedico este artigo a 2 pessoas em especial...

Dra. Ione Cuevas
Médica Veterinária Homeopata
sempre muito dedicada,interessada e precisa,
que através de todo conhecimento clínico,
do que chamamos da "arte da cura"
reabilitou meus animais com sabedoria.

Dr. Valdir Bernardo
Médico Veterinário 
que, apesar de seguir os preceitos da alopatia,
possui uma visão sensível ao avaliar os animais,
sempre movido pela intuição filosófica e feeling
para interpretar, diagnosticar e prescrever a cura, 
considerando o Todo em que eles se encontram.

Suas referências podem ser encontradas no índice."

                                                              

 

INTRODUÇÃO

A evolução de qualquer ramo da ciência jamais ocorreu por meio de atos isolados de um único cientista. Mesmo que uma descoberta seja atribuída a uma única pessoa, esta, certamente, está embasada em conhecimentos anteriores. 

Assim aconteceu com a homeopatia, construída sobre concepções como o princípio dos semelhantes, as doses infinitesimais, o medicamento único, dentre outros.

Esses preceitos já eram conhecidos por muitos médicos, desde Hipócrates até Hahnemann, com vários deles utilizando-os  principalmente o dos semelhantes –, em seus tratamentos e observações1.

A menção mais antiga que se tem a respeito do tratamento pela lei dos semelhantes foi encontrada em um papiro de 1500 a.C. 

Contudo, esse princípio era aplicado de uma maneira muito subjetiva e não por meio da observação dos sintomas causa dos no organismo, como foi introduzido experimentalmente por Hahnemann.

A obra de Hipócrates (460-350 a.C.) é um marco ciência e arte médicas, sendo este iluminado médico grego considerado o Pai da Medicina 2. Em seu tempo, Hipócrates introduziu a avaliação metódica dos sinais e  sintomas como base fundamental para o diagnóstico. 

Em termos de tratamento, advogava que dois métodos terapêuticos poderiam ser utilizados com sucesso: a “cura pelos contrários” (Contraria Contrariis Curentur), consolidada por Galeno (129-199 d.C.) e Avicena* (980-1037), que é a base da medicina alopática; e a “cura pelos semelhantes” (Similia Similibus Curentur), reavivada no século XVI por Paracelso** (1493-1591) e consolidada pelo médico alemão Samuel Hahnemann, quando este criou a Homeopatia 3.

No presente artigo, discute-se a Medicina Homeopática, única e exclusivamente do ponto de vista histórico. 

Para isto, enfocaremos a história da medicina e enfatizaremos o processo de separação da medicina em homeopatia e alopatia, que hoje constituem dois métodos totalmente distintos de abordagem terapêutica mas que tiveram a mesma origem nos trabalhos de Hipócrates.  

ORIGENS DA MEDICINA HOMEOPÁTICA 

Para Hipócrates, o tratamento era constituído por três princípios básicos 4

- Natura medicatrix — que a natureza se encarrega de restabelecer a saúde do doente e cabe ao médico tratar o paciente imitando a natureza, a fim de reconduzi-lo a um perfeito estado de equilíbrio. 

- Contraria Contrariis — esta é a chamada lei dos contrários, em que os sintomas são tratados diretamente com medidas contrárias a eles. 

- Similia Similibus — esta é a chamada lei dos semelhantes; dizia que a doença poderia ser debelada pela aplicação de medidas semelhantes à doença. 

Hipócrates dizia que essas duas formas de tratamento eram eficazes no restabelecimento da saúde, portanto a lei dos contrários e a lei dos semelhantes não se opunham em seu pensamento. 

Ele sempre tratava o paciente de forma abrangente e raramente se referia a enfermidade de maneira isolada. 

Galeno, no século II, foi o precursor de uma doutrina médica que prevaleceu por aproximadamente 1.500 anos. Era baseada no tratamento pelos contrários e na classificação da doença e dos agentes medicinais em quatro itens — fria, quente, úmida e seca — com o objetivo de facilitar a prescrição — para uma doença dita quente era utilizado um tratamento dito frio. 

Esse antagonismo de forças (quente/frio; úmido/seco) era muito encontrado na filosofia grega pré-socrática, sendo marcante no pensamento do filósofo Heráclito5

No século XVI, a medicina galênica era ensinada na grande maioria das faculdades de medicina.

 Essa vertente médica era fundamentada principalmente na “cura pelos contrários”, ou seja, o tratamento das enfermidades era feito por meio do medicamento que possuía efeito contrário a ela. 

A dor, por exemplo, seria aliviada com o uso de sedativos, sem maior preocupação com sua origem. 

A visão do corpo humano era, portanto, completamente mecanicista e, de certa forma, simplista.

Nesse período, um grande número de epidemias assolava a Europa, e a população tinha uma pequena expectativa de vida. 

A utilização de técnicas terapêuticas como sanguessugas, sangrias, administração de vomitivos, purgativos e suadores,dentre outros, era largamente aceita e empregada com base em critérios muito frágeis. 

Além disso,alguns médicos não diferenciavam o método de tratamento, acreditando que a maioria das doenças poderia ser tratada do mesmo modo 6

A essa altura, os conceitos de Hipócrates já se encontravam fragmentados, pois os grandes médicos seguiam apenas um dos conceitos — em geral o dos contrários. 

Neste contexto, surgem as revolucionárias (mas não novas) idéias de Paracelso, apresentando uma visão totalmente oposta à vigente, considerando o ser humano como um todo integrado e harmônico, constituído de mente e corpo. 

Acreditava que a anima governava o organismo, semelhante ao princípio vital dos homeopatas. 

Paracelso era acérrimo opositor da “cura pelos contrários” (chegou a queimar, em praça pública, os livros escritos por Galeno e Avicena) e achava que uma enfermidade podia ser convenientemente tratada pelos semelhantes 7

Paracelso também introduziu o conceito de dosagem, já que os médicos administravam quantidades maciças de drogas aos pacientes, que acabavam por intoxicá-los. Ele também utilizou novas técnicas para o preparo de medicamentos baseando-se nos seus conhecimentos de alquimia. Fez inúmeras contribuições à medicina e à química, introduziu inúmeros medicamentos compostos por substâncias inorgânicas e orgânicas, alguns dos quais utilizados até recentemente, como o ópio (sedativo), o ferro (antianêmico) e o mercúrio (anti-séptico), dentre outros.Fundiu a medicina com as forças astrais. Rejeitava e combatia publicamente a ciência clássica, o que o levou a um grande isolamento intelectual, pois na época suas idéias não eram reconhecidas pelos outros grandes homens da ciência8,9

Paracelso determinava um tratamento pelos vários sinais e sintomas que o paciente apresentava,seguindo a lei dos semelhantes. Preparava tudo o que prescrevia e era contra a mistura de medicamentos, além de acreditar que as drogas deveriam ser administradas não pela quantidade, mas, principalmente, por suas características. 

Encontramos,desta forma, várias semelhanças com a prática de Hahnemann, apesar de este nunca ter se referido a Paracelso. 

É pouco provável que Hahnemann não tenha conhecido a obra de Paracelso, pois, além de traduzir inúmeros livros, era um grande estudioso da evolução da medicina; o que ele, provavelmente,quis foi não associar a homeopatia a Paracelso, com medo de sofrer ainda mais críticas — Paracelso era considerado o “médico maldito”, por ter combatido os grandes mestres seguidos pelos médicos de sua época (Machaon, Apolino, Galeno, Avicena, Averróis e outros), com uma doutrina constantemente veiculada ao ocultismo.

O criador da homeopatia, Christian Frederich Samuel Hahnemann, nasceu no dia 10 de abril de 1755 na pequena cidade de Meissen, no eleitorado da Saxônia (Alemanha). S

eu pai era pintor de porcelana e sua obra partilhava a admiração dos grandes senhores da época; apesar disso, não possuía uma boa situação financeira. 

Em 1775, Hahnemann vai para Leipzig, onde lhe foi permitido assistir aulas na universidade. 

Para custear os estudos, traduzia livros médicos do inglês para o alemão e lecionava outros idiomas. 

Apesar de a Universidade de Leipzig ser excelente, não possuía instalações para o treinamento clínico que tanto lhe encantava e por isso, após dois anos de estudos, partiu para Viena com a intenção de praticar a medicina. 

Lá adquiriu experiência com o famoso Dr. Von Quarin, o médico real. 

Seus recursos possibilitaram que ele permanecesse menos de um ano, quando então foi convidado pelo governador da Transilvânia para catalogar sua biblioteca e classificar sua coleção de moedas. Hahnemann passou a ser, também, uma espécie de conselheiro médico e a dar consultas, apesar de ainda não estar formado. 

Ficou na Transilvânia por dois anos, até que conseguiu economizar dinheiro suficiente para matricular-se na Universidade de Erlangen, em 1779, obtendo,no mesmo ano, o diploma de médico, ainda com 24 anos 10. 

Hahnemann clinicou durante algum tempo,mas tornou-se insatisfeito, a exemplo de Paracelso, com os resultados obtidos com a medicina tradicional, optando por ganhar a vida traduzindo livros médicos. 

Em 1790, aos 35 anos, durante a tradução da Matéria Médica, de William Cullen (1710-1790), ficou intrigado com as explicações dadas por este para os efeitos terapêuticos da quina. 

Experimentou-a em si mesmo, observando manifestações bastante semelhantes às apresentadas por pacientes com malária. 

Concluiu, então,que a quina era utilizada no tratamento da malária porque produzia sintomas semelhantes em pessoas saudáveis.

 Animado por esses resultados,utilizou também beladona,  digital, mercúrio e outros compostos, obtendo resultados similares. 

Apoiado em suas evidências experimentais e na filosofia hipocrática (Similia similibus curentur), Hahnemann idealizou uma nova forma de tratamento, embasada na cura pelos semelhantes 11

A partir desse momento, Hahnemann começou a pesquisar a “lei dos semelhantes”. 

Em 1796 publicou Ensaio sobre um novo princípio para averiguar os poderes curativos das substâncias medicinais,no qual fazia um apanhado sobre seus experimentos e relatava alguns fatos observados anteriormente por outros autores. 

Nesse mesmo ano, retornou à profissão médica, tratando seus pacientes pela aplicação de suas novas idéias. 

O ano de 1796 ficou conhecido como marco inicial da homeopatia.

Criam-se, portanto, os fundamentos da medicina homeopática, que divergem, em essência, dos conceitos terapêuticos alopáticos da medicina tradicional. 

Vale ressaltar que as concepções hahnemannianas reviveram muito da tradição hipocrática – atenção ao regime alimentar, importância dos fatores climáticos, ecológicos, psicológicos e a existência da energia vital.

Como algumas plantas e substâncias eram tóxicas, algumas vezes ocorriam efeitos adversos importantes, Hahnemann decidiu, pois, diluir os medicamentos ao máximo, de maneira que sua toxicidade fosse diminuída. 

Com os resultados promissores da nova terapêutica, decidiu voltar a clinicar, em definitivo.

Conta a história que nessa época aconteceu o que alguns consideram um “triunfar do acaso e de inteligente observação”, que impulsionou fortemente o estudo da homeopatia. Hahnemann possuía uma pequena carroça, com a qual percorria o interior do país para tratar a população. 

Ele começou a observar que os pacientes que moravam mais distantes eram mais eficaz e rapidamente curados, e associou isto ao movimento que a carroça fazia ao passar pelos buracos da estrada. 

Passou, então, a sacudir os medicamentos (dinamizar) e basear o preparo destes em dois preceitos: diluição e dinamização. A partir desse momento, os resultados obtidos foram muito positivos, e a Medicina Homeopática começou a se difundir e a ganhar popularidade12

Em 1810, publicou a primeira edição do Organon da Arte de Curar, livro que teve outras cinco edições. A sexta edição só fora publicada em 1921, muitos anos após sua morte. 

O Organon passou a ser considerado a “Bíblia da homeopatia”. Nessa obra, Hahnemann cita 440 médicos que utilizaram o princípio dos semelhantes, desde Hipócrates até os seus dias. 

Em 1811, publicou o primeiro volumeda Matéria Médica Pura, que concluiu no ano seguinte, sendo constituída por seis volumes.

A partir de 1812, começou a lecionar na Universidade de Leipzig para estudantes, admiradores e antigos médicos. Para tanto, teve que defender tese na faculdade de medicina, fazendo uma magistral apresentação sobre a utilização do Veratrum album para uma platéia lotada, demonstrando profundo conhecimento da história do pensamento médico. 

Após a dissertação, a banca, constituída por inúmeros adversários de sua doutrina,teve que admitir sua grande erudição e aprová-lo sem ressalvas. Conseguiu um grande número de seguidores e, em 1828, publicou outra grande obra, intitulada Doenças Crônicas. 

Nessa época, a homeopatia já havia alcançado várias outras regiões do mundo; seu criador, porém, ainda não havia sido reconhecido. 

Hahnemann viveu em Paris de 1835 até sua morte, aos 88 anos, no dia 2 de julho de 1843, após o que foi reconhecido por inúmeros médicos que antes se opunham a seus ensinamentos. 

Em Leipzig, local onde sofreu severas críticas e perseguições, médicos e farmacêuticos ergueram, em 1851, um monumento de bronze em sua homenagem 12.

Muitos foram os seguidores de Hahnemann que, após sua morte, continuaram sua obra. 

Contudo, os que mais contribuíram para a evolução dos fundamentos da homeopatia foram Hering e Kent. Constantin Hering nasceu em 1 o de janeiro de 1800, na Saxônia, Alemanha, e ingressou, em 1817, na Academia de Cirurgia de Dresden e, em 1820, na Faculdade de Medicina de Leipzig. 

Em 1833, foi morar nos Estados Unidos, onde fundou vários institutos homeopáticos, lecionou e escreveu uma grande obra, Matéria Médica, composta por dez volumes, mantendo, durante muitos anos, contatos por correspondência com Hahnemann, os quais, posteriormente, também foram publicados. 

Hering chegou a assistir às conferências proferidas por Hahnemann na Faculdade de Medicina de Leipzig e foi o criador de uma lei de tratamento que leva seu nome — “Lei de Hering” —, exposta pela primeira vez pelo próprio Hahnemann em uma das edições de seu livro Doenças Crônicas, em 1845. 

Morreu em 1880, tendo adquirido grande prestígio no meio médico 13. James Tyler Kent nasceu em 31 de março de 1849, em Nova York, Estados Unidos, e faleceu em 1916. 

Escreveu vários livros que são utilizados até a atualidade, tais como Repertório, Matéria Médica, Filosofia Homeopática, dentre outros que foram traduzidos para várias línguas e até hoje são reimpressos.

Criou várias técnicas e conceitos, além de um novo modo de pensamento da homeopatia, que muitos seguiram, sendo denominada “Escola Kentiana”. 

Suas idéias contribuíram para a difusão de uma imagem um tanto quanto esotérica da homeopatia, pois sua filosofia era puramente intuitiva14

Em meados do século XIX, começaram a ser descobertos vários microorganismos causadores de doenças, passando-se a crer que toda enfermidade possuía uma causa material específica. 

A partir de então, Pasteur, Kock e Lister introduziram um cunho mais científico à medicina e às ciências correlatas. 

Nesse momento, as ciências médicas começam a adquirir perfis mais materialistas, decorrente das influências oriundas da Filosofia Cartesiana de René Descartes (1596-1650)***

Conceitos como energia vital e integração entre físico, mente e emoção quase são perdidos. 

Ilustres cientistas e pensadores, como Isaac Newton e Francis Bacon, passam a declarar que a ciência começava a tomar o caminho errado15...

Muitas das idéias que não podiam ser comprovadas experimentalmente foram refutadas. 

Deste modo, a medicina homeopática sofreu um grande impacto negativo, pois as comprovações do seu mecanismo não podiam (e em parte ainda não podem) ser obtidas. O que a sustentou até os nossos dias foram as experiências individuais de sua eficácia na prática médica.

 Atualmente, graças ao avanço tecnológico, modernos equipamentos e ao maior desenvolvimento da físico-química, está-se conseguindo, lentamente, propor alguns mecanismos capazes de explicar a atuação dos medicamentos homeopáticos.*** 

A Filosofia Cartesiana concebia o universo como um mecanismo gigantesco e os seres vivos como autômatos complexos, regidos por leis físicas imutáveis, totalmente desprovidos de qualquer princípio anímico ou espiritual. Este paradigma mecanicista dominou por três séculos todo o pensamento científico, dando origem mais tarde ao ateísmo.  

HOMEOPATIA NO BRASIL 

Em 1841, Benoit-Jules Mure (que passou a ser conhecido como Bento ure) fundou a Escola Homeopática do Rio de Janeiro. 

Em 1842, surge o Instituto Homeopático de Saí (Santa Catarina) e abre-se a primeira farmácia homeopática do Rio de Janeiro (fundada por Bento Mure e João Vicente Martins). 

Três anos após, é criada a Escola Homeopática do Brasil, sob a direção de João Vicente Martins, a qual, em 1847, é substituída pela Academia Médico-Homeopática do Brasil. Bento Mure recebeu severas críticas no meio médico, por tentar difundir idéias totalmente desconhecidas no país. 

Desgostoso com a situação,optou por sair do Brasil sete anos após sua chegada, deixando, entretanto, a semente lançada (fez muitos discípulos que continuaram seu trabalho). 

Entre os grandes nomes brasileiros que se tornaram adeptos da homeopatia, durante sua implantação no Brasil, podemos citar11,13 : João Vicente Martins (1810-1854); Domingos de Azevedo Duque-Estrada (1812-1900); Sabino Olegário Ludgero Pinho (1820-1869); Maximiano Marques de Carvalho (1820-1896); Antônio do Rego (1820-1896); Saturnino Soares de Meireles (1828-1909);Manuel Antônio Marques de Faria (1835-1893);Alexandre José de Melo Morais (1843-1919); Joaquim Duarte Murtinho (1848-1911); Cássio Barbosa de Resende (1879-1971).

Em 1858, o Hospital da Ordem Terceira da Penitência abriu uma enfermaria homeopática, seguida pelo Hospital da Beneficência Portuguesa (1859), Hospital da Ordem Terceira do Carmo(1873), Santa Casa de Misericórdia (1883), Hospital Central do Exército (1902) e Hospital Central da Marinha (1909).

No início do século (1914), Licínio Cardoso fundou no Rio de Janeiro a Faculdade Hahnemanniana e, a ela anexo, o Hospital Homeopático do Rio de Janeiro (atualmente Escola de Medicina e Cirurgia da Uni-Rio, essencialmente alopática).

Em 1966, durante o governo de Castello Branco,foi decretada obrigatória a inclusão da Farmacotécnica Homeopática em todas as faculdades de Farmácia do Brasil. 

Em 1977, foi publicada a primeira edição oficial da Farmacopéia Homeopática Brasileira. Em 1980, o Conselho Federal de Medicina reconheceu oficialmente a homeopatia como especialidade médica, deixando, assim, de ser uma “terapia alternativa”. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando a homeopatia surgiu, consistia em uma técnica terapêutica revolucionária (ainda que de embasamento antigo) que utilizava um método inovador para determinar a atuação de um medicamento — este era testado no próprio organismo humano —, além de utilizar outras técnicas avançadas de tratamento para a época.  

Seguiu-se a difusão dos conhecimentos homeopáticos por boa parte do mundo. 

Entretanto, após a morte de Hahnemann, foi mantida a mesma linguagem usada em sua época, não podendo a homeopatia ser considerada sob o enfoque das novas perspectivas científicas emergentes — não havia como se comprovar os fundamentos deste ramo da medicina. 

Essa mentalidade, inicialmente inovadora, tornou-se ultrapassada, persistindo os mesmos princípios até a atualidade.

Apesar dos relatos de que os medicamentos homeopáticos apresentavam efeitos significativos, a homeopatia começou a ser questionada por não existir um mecanismo plausível, ocorrendo seu progressivo isolamento, que acentuou o preconceito.

 Provavelmente, este foi o fator que mais contribuiu para o declínio da homeopatia em relação à alopatia e sua denominação errônea e inadequada de “medicina alternativa”.

Atualmente, a despeito de todos os preconceitos, a homeopatia vem evoluindo substancialmente, em curto período de tempo. 

Apesar de nem todos homeopatas compartilharem da modernização, esta é irreversível. 

Além disso, o cunho científico que vem sendo adquirido é inegável, de modo que, para o próximo século, podemos esperar pela definitiva copreensão dos mecanismos terapêuticos da homeopatia. 


Notas, Referências Bibliográficas & Fontes utilizadas para composição do artigo:


* AVICENA (Ibn Sina) é considerado um dos maiores sábios do Islã, sendo reconhecido principalmente por seu trabalho filosófico (síntese crítica das obras de Platão, Aristóteles e Plotino). Já aos 16 anos, Avicena era bastante conceituado por seu talento como médico, tendo sido um dos grandes difusores da obra de Galeno. 

** PARACELSO (Aureolus-Phillippe-Teophrastus Bombast vonHohenhein) nasceu na Suíça. Seu pai era médico e o instruiudesde cedo nos segredos da arte de curar. Entretanto,Paracelso logo se rebela contra estes ensinamentos – considerados por ele antiquados – tornando-se um dos mais controversos médicos e alquimistas de todos os tempos.

*** A Filosofia Cartesiana concebia o universo como um mecanismo gigantesco e os seres vivos como autômatos complexos, regidos por leis físicas imutáveis, totalmente desprovidos de qualquer princípio anímico ou espiritual. Este paradigma mecanicista dominou por três séculos todo o pensamento científico, dando origem mais tarde ao ateísmo.

1. Corrêa AD, Quintas, LEM. A Homeopatia como ciência:fatos e suposições (Editorial). Sci Med 1995: 1; 51-2.

2. Nova enciclopédia de biografias. Rio de Janeiro, Planalto Editorial, 1979.

3. Dudgeon RE. O princípio homeopático antes de Hahnemann. Rev Homeopatia - APH 1994; 59: 2.

4. Vannier L. A idéia da Homeopatia na história In: Médecine officielle et médecins hérétiques, editora Plon, 1945. Republicado na Rev Homeopatia - APH 1994; 59: 1.

5. Chauí M. Os pré-socráticos. In Chauí M: Introdução à história da filosofia. 1 a ed. São Paulo, ed.Brasiliense, 1994;47-99.

6. Danciger E. Paracelso. In Danciger E: Homeopatia: da alquimia a medicina. 1a ed. Rio de Janeiro, Ed. Xenon, 1992;23-47.

7. Boyd JL. A concepção antiga de símile (1936) In: Selecta Homeopathica, Rio de Janeiro, 1994; 2(1): 5-77.

8. Vanin JA. Alquimistas e químicos. 1 a ed. São Paulo, Ed.Moderna, 1994.

9. Chassot A. Idade Média: noite de mil anos. In Chassot A: A ciência através dos tempos. 1 a ed. São Paulo, Ed. Moderna,1994; 67-86.

10. Dudgeon RE. Hahnemann, esboço de uma biografia. Rev Homeopatia - APH 1994; 59: 3-4, 10-30.

11. Corrêa AD, Quintas LEM. Princípios e conceitos atuais da medicina homeopática. Rev Bras Med 1994; 51: 914-20.

12. Corrêa AD. Samuel Hahnemann. Sci Med 1995; 1: 68-70.

13. Eizayaga FX. Historia de la similitud em medicina. In Eizayaga FX: Tratado de medicina homeopática, 3 a ed.Buenos Aires, Ediciones Marecel, 1992.

14. Weiner M. O livro completo de homeopatia. 1 a ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1994; 243-67.

15. Kent JT. A la memoria de James Tyler Kent. In Kent JT:Filosofia homeopática, 2a ed. Madrid, Casa Editorial Bailly Bailliere, 1926; 11-9.


Rev Ass Med Brasil 1997; 43(4): 347-51

A.D. CORRÊA, *R. SIQUEIRA-BATISTA, **L.E.M. QUINTAS
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro; *Faculdade de Ciências Médicas, Universidade doEstado do Rio de Janeiro; **Departamento de Farmacologia Básica e Clínica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

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